A “Casa” deve ser tida como símbolo da relação entre a história, a memória e a identidade, no entanto, quando abordamos estes três elementos assumimos que esta terá certamente um significado contínuo, pois muitas das vezes, acabamos por confundir as cinzas de um passado com a chama de um futuro globalizado, quase como que se a história, a memória e a identidade fossem a viagem que fazemos na estrada que retrata uma época.
Contudo, não deverá a história, a memória e a identidade ser como a “Casa”?
A casa não tem o carácter de uma estrada, porque absorve marcas do tempo, as memórias, as vivências, os valores paisagísticos da sua envolvente, o sol, a chuva e as emoções. Absorve as imagens, mobiliário, utensílios, cheiros, sensações, sem esquecer a forma como a mesma é capaz de alterar o modo como percecionamos o “mundo exterior” a partir das suas janelas marcadas por uma quadrícula que o organiza. A casa tem o poder de transformar o habitante e permite preservar uma identidade individual ou colectiva através da memória.
“A Arquitectura é o único meio de que dispomos para conservar vivo um laço com o passado ao qual devemos a nossa identidade, e que é parte do nosso ser” citava a certa altura a historiadora francesa Françoise Choay no seu livro Alegoria do Património (Choay, 1999, p.121). Esse laço com o passado e a história pode ser visto como uma memória coletiva, que foi sendo passada ao longo dos tempos às diferentes gerações que compõem uma comunidade e essa memória colectiva é responsável por garantir a preservação da identidade de um grupo, região ou nação. É certamente um erro assumir que a memória é estritamente individual porque as nossas raízes, religião, princípios, gastronomia, técnicas, vivências e sem nunca esquecer a arquitectura estão na grande maioria das vezes ligadas aquilo que é a nossa história, memória e identidade.
E mesmo num mundo cada vez mais global, onde as pessoas estão cada vez mais próximas através dos mais diversos meios tecnológicos, há uma história, há uma memória e há uma identidade que ainda diferencia as mais diversas culturas.
Dizia John Ruskin “Podemos viver sem a arquitectura, adorar o nosso deus sem ela, mas sem ela não podemos recordar” (Ruskin, 1989, p.147). A Casa constitui uma presença viva do passado no presente e certamente, essa presença viva manter-se-á também no futuro.
A casa tal como o ser humano adquire uma reminiscente identidade. É necessário pensar que o ser humano tem como uma das suas principais ambições a busca pela compreensão da história, da memória e da identidade, sendo a casa a caverna dos tempos modernos e o refúgio dos pensamentos.
É necessário olhar a casa com humildade. A humildade reflete o nosso bom senso, é vista como uma virtude, e permite que as pessoas se avaliem a elas mesmas em relação aos outros, é sinónimo de respeito e honestidade.
É urgente que exista humildade para uma profunda compreensão da história, memória e identidade, pois a casa deve ser valorizada das mais diversas formas enquanto património evolutivo-vivo, pertencendo a diversos períodos históricos e culturais. Foram estes períodos responsáveis por influenciar o modo como intervimos, valorizamos e salvaguardamos o património tangível e intangível.
SOARES, R. (2018). A Casa do Fundo da Rua. Património Construído: Estudos, Defesa e Valorização. A Obra Nasce, nº13, pp. 91-98.